sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Capítulo 1 - Garota problema



Estava em um lugar macio e quente. O movimento de deslizar era suave quase todo tempo, e o som de jazz no rádio cobria o barulho da chuva fora da janela do carro. Continuava de olhos semicerrados, em um meio sono, enquanto vigiava meus pais que conversavam em voz baixa no banco da frente, de vez em quando dando as mãos. Minha mãe murmurou algo e um cobertor foi jogado sobre mim. Eu queria dizer que estava acordada, dizer algo, mas ainda fingia que estava irritada com eles. 
Resmunguei algo e eles riram aos sussurros. Certo. Talvez ficasse irritada um pouco mais.
Virei para o lado e suspirei, retirando o cinto para me deitar melhor. E então aquele som horrível cortou a noite. Fui jogada com um solavanco e uma dor terrível tomou minhas costas antes que eu formasse qualquer grito. Houveram lapsos, e então um brilho de fogo tomou tudo a minha frente.

- Ayzu!
Acordei ofegante com um pulo e cai da cama. 
- Merda!
- Boquinha suja, 1 real no potinho do palavrão. Levante que você vai se atrasar. 
Dei um suspiro sentido minhas costas doerem, e dando graças por dormir na parte de baixo do beliche. Estaria ferrada coma quantidade de vezes que caio da cama. Talvez eu devesse colocar grades. Não. Humilhante. 
Chutei a colcha que caiu comigo e me levantei do chão frio esfregando os olhos. Era assim toda manhã há dois anos, desde que começara a fazer graduação. Meu nome é Ayzu Saki. Tenho vinte anos, e apesar do nome sugestivo, não tenho nada de aparência oriental, apenas os avós. Minha cara é uma mistura tão grande de culturas, que em nenhum pais do mundo que eu fosse eu poderia me considerar pertencente. Triste. A eterna excluída.
Moro há dois anos com minha amiga Tina, que estuda na mesma universidade que eu, e que me acorda todos os dias com um berro por eu estar sempre atrasada. Dividimos um cubículo perto da universidade. Um cubículo mesmo, sem exagero, meu melhor amigo diz que quando usa nosso banheiro pode usar o vaso, tomar banho e escovar os dentes ao mesmo tempo.
Me arrumei as pressas como todo dia. Quando cheguei na sala, Tina já havia saído e peguei a bicicleta saindo com a boca cheia de barra de granola.
- Faz mal fazer exercício físico logo quando se come smurfet.
Teria replicado se não estivesse me engasgando. Recebi uma pancada nas costas e cuspi a barra enquanto meu melhor amigo ria recostado na sua bicicleta em frente a meu Apartamento. Era ali que ele me esperava todos os dias para irmos juntos. A gente sempre se atrasava de qualquer forma mesmo. Fiz cara feia pra ele, o que o fazia rir ainda mais enquanto subíamos e começávamos a pedalar. A universidade era relativamente perto, uma pedalada de dez minutos no máximo, mas segundo ele era sempre o prenuncio de um belo dia, cheio de grandes risadas da minha cara. Eu causava isso nele. 
- Ei, Smurfet.
- Sua Avó Igor. Smurfet é sua avó!
Ele riu. Odiava aqueles apelidos de gente baixinha. E por isso, ele sempre acordava com um novo. Aquela criatura tinha uma ótima criatividade, eu tinha que falar.
- Alguém acordou de mal-humor...
Ele deu uma risada cínica e eu bufei. 
- Só você e a Tina para acordarem felizes as seis da manhã; - repliquei com um meio sorriso. Era impossível ficar muito tempo fingindo seriedade com um retardado fazendo acrobacia com uma bicicleta na minha frente com um chapéu de otaku com orelhinhas de panda. Igor usava essa coisa na universidade sem receio algum com a implicância dos colegas. Ele não se importava aparentemente com o que lhe diziam, o que eu achava admirável. Era sempre tão confiante com quase tudo, que passava respeito. Ele conquistava as pessoas facilmente. 
  Eu era a prova exata que ele conquistava qualquer um. Quando a gente se conheceu, eu tinha acabado de perder meus pais e tinha ido morar com meus tios do outro lado do pais. Não estava muito pra amigos. Não conversava com ninguém na escola, meus trabalhos em equipe eram um martírio. Eu me metia em uma briga pelo menos por semana, e minhas respostas atrevidas estavam deixando os professores loucos. Minha situação ficou tão feia, que meus tios foram chamados. Com dez anos, havia me tornado por assim dizer a criatura mais problemática da escola. Eu, particularmente, estava pouco me importando. Então conheci o retardado na aula de educação física quando fui obrigada a fazer dupla com ele. Imagina encontrar uma criatura usando a faixa do Karaté kid e rindo escandaloso... Logo de cara ele me chamou de mestre yoda, e eu já queria em menos de um minuto afogar ele na piscina. É claro que iriamos nos tornar melhores amigos.
Não nos separamos mais, e quando chegou a hora da universidade, partimos juntos com a ordem da mãe dele que eu cuidasse de seu bebê. Já no primeiro dia de aula ele se tornou o rei da universidade. E eu... bem, continuei eu.
Andamos como sempre pelos corredores, com Igor sendo cumprimentado e eu tentando não ser incomodada. Meu terapeuta me dizia que eu tinha um trauma ou algo assim, e por isso evitava tanto a interação com outros. A verdade é que eu me sentia desconfortável em uma conversa que durasse mais de cinco minutos. Eu sou cheia de esquisitices, então dois amigos, para uma pessoa como eu, já eram uma multidão. E bem, aqueles dois eram tão espaçosos que realmente não deixavam de ser uma multidão de um jeito ou de outro. 
Em contraste com o ensino médio, eu tentava ser tão calma como uma professora de yoga, e fazia ainda terapia para controlar minha raiva interior” e “melhorar minha capacidade de interação”.  Em resumo, de agora em diante eu sentava na cadeira ao canto, cumprimentava as pessoas com um bom-dia e até logo e mordia minha língua quando ouvia algo estúpido. Terapia é tudo de bom.
Igor e Tina faziam psicologia, e eu engenharia mecânica (segundo Igor por que precisava de menos interação humana). Minha sala possuía basicamente homens, e quatro mulheres, e em dois anos havia se reduzido pela metade. Eu sabia o nome de todos, e só de observá-los por tanto tempo, o que cada um fazia.  Os melhores da sala em nota era eu e o Nelson, um moreno de óculos falante. Ele era um sujeito antipático e entojado, e desconfio que o culpado por certa vez meu caderno de cálculo ter sumido um dia antes de uma avaliação, e ter aparecido uma semana depois em cima da árvore no pátio.  Nem todo mundo suporta concorrência.  Como também sei que foi ele espalhou a história de que eu era um autômato feito por uma das industrias de seu pai (muito engraçado Nelson!), e passei uma semana ouvindo referências sobre o livro “eu, robô” no quadro. Ele até tentou me insultar diretamente no início, mas nem sempre minha terapia contra a raiva funciona... Acho que ele ficou com medinho. Eu posso ser muito cruel as vezes, por isso fui deixada em paz.
Por isso estava no meu estado de sempre de humor com o mundo quando o novo professor de cálculo chegou e nem vi. Estava quase dormindo na cadeira quando ouvi a voz calma, quase como uma canção suave. Levantei meu olhar devagar e ali, logo na frente daquela sala dos gênios incompreendidos, vi o homem mais lindo que poderia conhecer pessoalmente em minha vida. Do tipo que veria como capa de modelo de cuecas, e não em uma sala de engenharia mecânica. Meu coração saltou no peito e tenho certeza que babei um pouco em cima do caderno. Ouvi um certo burburinho e me refiz bem a tempo que ele me olhou diretamente. Que olhos grandes e calorosos! Que cabelo brilhante! Que corpo! Seria tão... Parei.
Que indiano lindo...
Ele desviou os olhos com um sorriso e continuou se apresentando.
- Sou Mashur Kishan. Nesse semestre a cadeira de cálculo...
Mashur. Será que ele veio da índia ou é só descendente? Será que ele já andou em cima de um elefante... Que pensamento imbecil. Parou Ayzu.
Ele continuou gesticulando com suas mãos grandes. Pareciam tão macias...
A aula passou sem que visse direito. Ou melhor, só visse meu professor... Isso era inédito para mim. O que não me impediu de retrucar uma coisa ou outra durante sua aula. Não serei Ayzu, se fosse diferente; Quando acabou continuei olhando que nem uma idiota enquanto ele guardava suas coisas e as pessoas saiam da sala. O cumprimentavam e diziam coisas gentis, e ele respondia com seu sorriso cheio de calor.
Oh Meu Deus! Eu estava apaixonada?
Balancei a cabeça incrédula e sai da minha cadeira devagar, pensando em algo agradável para falar, sem sucesso. Eu era péssima em puxar assunto. Dei um suspiro resignado e passei por ele.
- Até a próxima semana. – sua voz suave era dirigida a mim? Só havíamos nós dois na sala agora. Fala retardada!
- S.Sim. – gaguejei. Tentei sair o mais depressa possível mas acabei tropeçando em uma cadeira e derrubando as coisas de alguém. Sou ótima em primeiras impressões, já falei?
Ele me ajudou a arranjar as coisas e agradeci envergonhada. Quando me levantei ele continuava me olhando com um sorriso.
- Você é Ayzu. – falou calmo. – Me falaram sobre você e sua língua esperta.
Gelei no lugar. Ele não esperou que eu respondesse.
- Mas pensei que você tivesse... – ele me analisou com calma. – Uma aparência diferente. 
- Olhos puxados. – suspirei. – Já ouvi isso.
Ele riu: - Desculpe.
- Não tem nada. Já me acostumei.
- Seus avós são japoneses?
Ele abriu a porta pra mim e fez um gesto sugestivo. Nossa, eu estava caminhando no corredor com meu professor bonitão enquanto as meninas me olhavam surpresas. Ayzu! Vai com tudo garota!
- Meu avó sim. Minha avô era libanesa, e minha mãe tinha descendência europeia, indiana e africana.
Sério que era esse meu assunto?   
- Isso explica seus olhos, com certeza. Você é então o símbolo do caldeirão cultural?
- Talvez. – murmurei com um pequeno sorriso. Pela primeira vez essas perguntas sobre minha aparência não me incomodavam.   
- Ayzu! – Igor me chamava de forma escandalosa como sempre no corredor e o professor sorriu.
- Nos despedimos. Nos vemos próxima semana, recebi boas referências sobre você e seu desempenho. – ele falou perto da porta dos professores.
- Sério? Geralmente não me falam isso. – Meiga Ayzu. Seja meiga!
Ele riu: - gosto de alunos que me desafiem. Vai ser bom esse semestre. Até mais, Ayzu.
O vi entrar ali, paralisada ainda, e só acordei quando meu amigo idiota me deu um abraço no corredor que mais parecia uma chave de pescoço.   
- O que Raj Ananda fazia no corredor com você Smurfet?
- Igor, preciso de ar! – engasguei e ele me soltou me firmando. – É meu professor de cálculo, e não me chame de Smurfet Kong fu panda!  
- Irritadinha. – ele fez sinal de rendição. – Vamos comer que estou em fase de crescimento.
Revirei os olhos e o segui. Passei o resto do dia com os pensamentos em um certo indiano.

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